• Nuno Moreira da Cruz

Investimentos ESG debaixo de fogo

Os ESG têm de ser capazes de refletir os riscos para acionistas, mas também para o Planeta e para as pessoas. Se assim não for, estaremos a elevar o nível de “ESGwashing” para patamares nunca antes vistos…e a destruir tudo o que de bom já se atingiu.


Artigo publicado na edição digital do Jornal de Negócios em 16 Julho 2022


Fazendo algo de história, até há cerca de 10 anos a referência a medidas ESG (Environment, Social and Governance) era praticamente inexistente, tudo o que as empresas reportavam eram simplesmente os tradicionais indicadores financeiros. Só no início da década de 2010, e por força dos primeiros sinais de que o mundo corporativo tinha mesmo de começar a reagir à emergência climática e às crescentes desigualdades sociais, se começaram a definir indicadores ESG, sendo o “Materiality Map” da SASB a mais reconhecida “base de trabalho”. Desde então, muitas empresas a ela (e a outras plataformas semelhantes) têm recorrido para comunicar indicadores não-financeiros. A falta de estandardização e obrigatoriedade de reporte gerou o obvio: a maior parte das empresas só reportam “where I look good” – se tenho bons números em termos de diversidade ou redução de CO2…reporta-se; se não tenho… buscam-se outros onde se faz melhor figura.


Esta é a razão pela qual se sente cada vez mais a necessidade de avançar definitivamente para uma normalização que permita maior transparência para quem investe, e seja possível o benchmark entre empresas e indústrias. Nesta fase, existem várias iniciativas (regulatórias e não-regulatórias) que tentam trazer essa transparência para o mercado – desde o documento elaborado por quatro consultoras mandatadas pelo Fórum Económico Mundial em 2020 (que definiu 29 core metrics) até à mais recente iniciativa do ISSB (International Sustainability Standards Board), cujo documento está em consulta publica até à próxima semana. Passando obviamente pelas iniciativas europeias nesta matéria.


Ao mesmo tempo que tudo isto acontece, o investimento em ESG tem crescido exponencialmente tendo atingido $3 triliões (para que entenda, algo parecido ao PIB alemão), o que significa que o nível de escrutínio tem crescido também muito. O recente escândalo com a DWS (subsidiaria do Deutche Bank) trouxe luz sobre o que pode estar a acontecer nesta área. Nas palavras de quem (Desiree Fixler, ex-executiva da DWS) alertou para o que estava a passar (no relatório anual da empresa fazem-se declarações sobre investimentos ESG que não são verdade): “It’s a real wake-up call. I still believe in sustainable investing, but the bureaucrats and marketers took over ESG and now it’s been diluted to a state of meaninglessness”.


Desde então têm-se sucedido varias declarações pondo em causa estas métricas (a mais famosa de Ellon Musk que lhe chamou “scam”/golpada) e é evidente que este nível de escrutínio levará muitos a questionar estes investimentos. Mas deixemos algo claro: as métricas ESG são, acima de tudo, uma referência (quando honestas) sobre os riscos ambientais, sociais e de governação que uma empresa e os seus acionistas enfrentam, e não os riscos para as pessoas e para o planeta. Foram criadas a pensar no risco para acionistas e não para o Planeta e Pessoas. E essa é para mim a verdadeira essência do problema e da evolução que nesta fase se necessita: os ESG têm de ser capazes de refletir os riscos para acionistas, mas também para o Planeta e as Pessoas. Se assim não for, estaremos a elevar o nível de ESGwashing para patamares nunca antes vistos…e a destruir tudo o que de bom já se atingiu.



Nuno Moreira da Cruz

Executive Director

Center for Responsible Business & Leadership