• Nuno Moreira da Cruz

“A longo prazo estamos todos mortos”: O aparente conflito entre curto e longo prazo

É possível ter sucesso a curto prazo à custa do ambiente ou dos trabalhadores? É. Mas..."a longo prazo todos estarão mortos" – obrigado pela frase Jack!


Artigo de Nuno Moreira da Cruz - Diretor Executivo do Center for Responsible Business & Leadership da Católica Lisbon School para o Jornal de Negócios , 12 de fevereiro de 2022 .


A famosa frase de John M. Keynes "A longo prazo estamos todos mortos" foi muitas vezes usada no ambiente corporativo por Jack Welsh (JE, ex-CEO da General Electric), com o que queria basicamente transmitir a mensagem "temos de nos concentrar em entregar resultados a curto prazo, ponto final".


Para muitos líderes empresariais, JE foi considerado um dos melhores CEOs americanos do século passado, responsável em 20 anos (de 1981 a 2001) por transformar a GE de uma empresa quase falida para a posição #1 na sua indústria, tendo as receitas terem subido quase cinco vezes durante o seu mandato.


Vinte anos depois, vemos agora um movimento corporativo em direção ao “stakeholder capitalismo”, onde a noção de "lucro e curto prazo" não parece ser a receita para ter sucesso.


À medida que nos afastamos de um dos piores anos (em termos de saúde, económica e social) que os tempos modernos presenciaram e embarcamos num ano de recuperação, é mais importante do que nunca que o mundo empresarial defina estratégias para encontrar o equilíbrio certo entre objetivos de longo e curto prazo.


Não é raro que este aparente conflito de curto prazo vs longo prazo apareça em discussões entre executivos e muitas vezes essa expressão de Jack Welsh "enche a sala". Mas sejamos claros - existe realmente um conflito? Ou seja, qualquer empresa pode sobreviver a longo prazo sem resultados financeiros saudáveis a curto prazo? Ou, quer uma empresa de facto arriscar comprometer o longo prazo enquanto apresenta lucros anuais saudáveis?


Na esmagadora maioria das situações a resposta é oviamente negativa. Então, qual é o problema? A questão parece ser o que os principais “stakeholders” esperam hoje das empresas, e a mensagem, cada vez mais presente, para o mundo corporativo:

Se é verdade que sem sustentabilidade económica, dificilmente haverá preocupações sociais e ambientais, o que é também cada vez mais verdade é que sem essas preocupações sociais e ambientais dificilmente haverá sustentabilidade económica.


Simplificando, nenhuma decisão a curto prazo faz sentido se a estratégia a longo prazo não acomodar o respeito pelos desafios ambientais e sociais.


A maioria das empresas sempre teve em consideração, tanto o curto como o longo prazo, na tomada de decisões. Mas a variável fundamental da tomada de decisão sempre foi, com algumas exceções gratificantes, o que era melhor para o acionista. Tratava-se de gestão de riscos – se uma empresa decidisse não prosseguir um investimento específico porque prejudicava o ambiente, a principal razão para a decisão não era proteger o ambiente, mas a consideração que terá sido dada ao impacto que poderia ter na reputação da empresa e nas receitas futuras.


Este é o contexto em que o equilíbrio de curto vs a longo prazo precisa de ser alcançado para que as empresas possam triunfar. É possível ter sucesso a curto prazo à custa do ambiente ou dos trabalhadores? É. Mas..."a longo prazo todos estarão mortos" – obrigado pela frase Jack!



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