• Nuno Moreira da Cruz

Não acredito em “born leaders”. É tudo uma questão de prática, só que dá mesmo muito trabalho…



Nuno Moreira da Cruz, na qualidade de diretor executivo do Center for Responsible Business & Leadership da CATÓLICA-LISBON, escreveu o artigo na revista Human Resources, no passado dia 22/04/2021:

"A discussão clássica sobre se os líderes são “born or made” tem em mim alguém que pende claramente para um dos lados. A evidência científica “definitiva” não existe, múltiplos estudos apontam para cenários e respostas diferentes. Não quero com isto dizer, como o provam muitos dos estudos que apontam para a tese do “born leader”, que não existam situações genéticas que ajudem algo neste processo, mas não creio que seja, de forma alguma, o fundamental na criação de grandes lideranças.

Neste debate, limito-me a trazer a minha experiência (boa ou má, é a minha) e o que pude testemunhar ao longo de quase quarenta anos de vida profissional. Exerci a minha profissão em várias geografias, ambientes de negócio díspares, convivi com diferentes gerações de líderes, presenciei na primeira pessoa exemplos fantásticos e desastrosos de liderança, e se há algo que tenho muito claro é que liderança é tudo detalhe. Detalhe, detalhe e mais detalhe.

Nas formações que dou sobre liderança sempre que passamos pelo momento “contem-me lá o vosso melhor exemplo de liderança”, nunca, mas nunca ouvi alguém falar no líder que abriu novos mercados, duplicou resultados, ou liderou uma exemplar operação de M&A. As histórias que marcam os executivos e que perduram na memoria andam invariavelmente à volta de detalhes – desde o líder que “me ligou à noite para saber como tinha corrido a operação da minha filha” ao que “veio ao meu gabinete só para agradecer o meu trabalho”, desde o líder que “me esperava à porta de minha casa com um ramo de flores para dar as boas vindas à minha família a um novo país” até àquele que “nunca se esquecia do nome dos meus filhos”.

Tudo detalhes, mas que dão mesmo muito trabalho! E só lá se chega com muita pratica. Comparo a liderança muitas vezes ao ambicionar-se ser atleta olímpico: se lá se quer chegar, há que ir ao ginásio todos os dias, não basta à segunda, quarta e sexta. O mesmo na liderança, exige prática todos os dias e em todos os momentos – desde as reuniões de Administração aos acidentais encontros no elevador.

E que praticas são essas que pude testemunhar nos grandes líderes em quem tive a sorte de “tropeçar”ao longo da vida? Vejo cinco, podem ser seis, podem ser quatro, estas são as cinco que vinculam apenas a opinião de quem assina. Em versão muito sucinta deixo algumas pistas.

Em primeiro lugar, reconhecer a importância dos Valores. Nada nos compromete mais do que declarar os nossos valores. Um líder que declara algo básico como “sou pontual”, vai ter muita dificuldade em se atrasar cinco minutos na próxima reunião. Em segundo lugar, tratar o tema da Visão enquanto equipa, saber o que define uma Visão inspiradora. Não necessitamos ser Luther King ou Steve Jobs para definir uma visão. A nossa equipa pode ter 4, 40, 400, 4000 pessoas – isso não retira importância à necessidade de se desenhar em conjunto um futuro mais positivo, que nos une e dá energia enquanto equipa. Em terceiro lugar, reconhecer a importância da Inovação e de nos deixarmos questionar. A importância de nos mantermos atualizados num mundo em constante mudança, de nos deixarmos desafiar, a importância de desenvolver a capacidade de ouvir, ouvir genuinamente. Em quarto lugar, aquilo a que chamo “dar espaço”, entender que a confiança que se deposita nos que trabalham connosco é a base de tudo. Quando se “dá espaço” (o oposto de micro management) à nossa equipa, ela normalmente surpreende-nos pela positiva. E isto é absolutamente fundamental para desenvolver a sua autoestima e ajudar a equipa a crescer. Finalmente, “last but not least”, praticar aquilo que vejo como uma “liderança com o coração”. Quando se entra na empresa, não se deixa nada à porta, entra todo o ser humano e é esse ser humano que há que cuidar e liderar. Quando se gerem os colaboradores como seres humanos, criam-se seguidores e lealdades, de outra forma são meros… reportes diretos.

Dito de outra forma, quem ambiciona ser reconhecido como um líder inspirador tem mesmo de ir ao ginásio todos os dias."