• Nuno Moreira da Cruz

Ascensão profissional no feminino. Quotas e Síndrome do Impostor




Nuno Moreira da Cruz, na qualidade de diretor executivo do Center for Responsible Business & Leadership da Católica-Lisbon School of Business & Economics, escreveu o seguinte artigo na revista Human Resources, no dia 26 Nov, 2021:

O tema da igualdade profissional entre homens e mulheres está instalado na agenda corporativa há pelo menos duas décadas, e é desde essa altura que se desenvolveu a ideia das quotas para mulheres como forma de garantir a sua ascensão profissional.

Existência ou não de quotas, é sempre fonte de animadas tertúlias onde normalmente são as próprias mulheres as mais entusiastas opositoras (“quero ser promovida pelo meu talento, não por ser mulher”). Sou, sempre fui, dificilmente deixarei de ser, um defensor de maior poder corporativo para o sexo feminino – não tenho dúvidas que as suas qualidades e competências acrescentam muito a uma organização. A sua fantástica gestão do tempo, a sua maior sensibilidade para assuntos de Pessoas, a sua maior preocupação com a maioria dos stakeholders e especialmente com o Ambiente, a sua tendência a privilegiar a cooperação vs conflito, a ausência de “agendas pessoais”, faz do sexo feminino, um grupo profissional muito bem preparado para liderar. Obviamente que muito disto é estereótipo, há bons e maus exemplos em ambos os lados da “trincheira”, mas em termos gerais não duvido de que muito do que escrevo pode ser facilmente provado. Pelo menos a experiência isso me ensinou.

Todo este contexto para me conduzir ao mistério por resolver. Acompanhem-me através destes dados que a investigação tem provado e os factos avalizado:

1. Dados europeus indicam que, em termos gerais, das Universidade saem 50% mulheres/50% homens (sendo o tipo de curso, quando assim não se verifica, a principal diferença).

2. Middle Management corporativo é composto por 60% homens/40% mulheres (sendo o tipo de funções, quando assim não se verifica, a principal diferença).

3. Top Management é composto por 80% de homens/20% mulheres (sendo a geografia e o tipo de indústria, quando assim não se verifica, as principais diferenças).

4. O que é decisivo na ascensão profissional é a Inteligência emocional e não tanto o QI. Este serve para obter boas notas na Universidade e abrir as portas de alguns empregos, mas muito dificilmente é a “receita” para o sucesso profissional.

5. A inteligência emocional é composta por doze variáveis (desde a autoconsciência das emoções até à empatia, da adaptabilidade à Gestão de Conflitos).

6. Estudos recentes demonstram que as mulheres são melhores do que os homens em onze dessas doze competências.

O que nos conduz à pergunta óbvia – mas então porquê? Se isto é assim, porque estão as mulheres tão pouco presentes no topo da pirâmide corporativa? E aqui começa a “conversa de café” onde todas as opiniões são permitidas. Atrevo-me a contribuir para essa conversa, trazendo para a mesa o conceito do “Síndrome do Impostor” (que resumo numa frase: “não sou tão bom como os outros pensam que sou e um dia vou ser descoberto”) – que afeta muito mais as mulheres do que os homens e que é fortemente limitador do pensamento e da ação. Recordo-me sempre de um estudo feito pela Hewlett-Packard há alguns anos, onde perguntavam aos seus executivos “se sair um anúncio de candidatura a um posto de trabalho onde se exija o cumprimento de cinco requisitos, quantos considera que tem de cumprir para de facto se candidatar?”. Mulheres responderam “obviamente aos cinco”, homens… “três e candidato-me”. É disto que estou a falar.

E termino como comecei, falando de quotas: por tudo o que fica escrito, sou um forte defensor das quotas para mulheres – há que “forçar” para que a ascensão aconteça. Na esperança de que um dia deixemos de necessitar de quotas.





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